Deus nãopCertos nomes próprios quando vêm à memória causam uma reação muito incômoda. A palavra Stalingrado lembra a rendição do 6º exército alemão cercado pelas forças soviéticas em fevereiro de 1943, com no mínimo 1,5 milhões  de baixas de ambos os lados. A palavra Hiroshima lembra o lançamento da primeira bomba atômica em tempo de guerra em agosto de 1945, matando na hora mais de um quarto da população da cidade (70 mil) e outro tanto por conta da radiação. As palavras Torres Gêmeas lembram o ataque terrorista realizado em setembro de 2001, contra o World Trade Center, em Nova York, e o Pentágono, em Washington, vitimando mais de 3 mil pessoas.

De igual modo, a palavra Gibeá, para quem conhece a história, causa arrepios ainda maiores, porque reúne sexo e violência. Trata-se de uma cidade israelita localizada no território da tribo de Benjamim, a cinco quilômetros ao norte de Jerusalém, a moderna Tell el-Ful. Mais de 1050 anos antes de Cristo, alguns homens bissexuais de Gibeá, sendo impedidos de ter relações com um levita de passagem pela cidade, abusaram de sua mulher durante toda a noite, causando a morte da jovem senhora. Porque autoridades de Gibeá não tomaram providência alguma para punir os responsáveis, as outras tribos, indignadas com o crime, declararam guerra contra a tribo de Benjamim. A guerra civil deixou mais de 60 mil mortos e as cidades benjamitas, inclusive Gibeá, foram incendiadas e destruídas. Da chacina só sobraram quatrocentos rapazes , que, mais tarde, vieram a se casar com moças Jabes-Gileade, sobreviventes de outra chacina (Jz 19-21).

Por causa desses desastres, a palavra Gibeá e Benjamim não eram de saudosa memória para o povo Israel.  Deviam ser evitadas para não trazer à lembrança não só o estupro daquela pobre mulher e a horrenda matança de tanta gente – inclusive mulheres e crianças –, mas também a maneira extremamente dramática como o levita tornou conhecido o crime cometido contra ele e sua concubina. O homem “apanhou uma faca e esquartejou sua concubina. Ele a dividiu em doze pedaços e mandou um pedaço para cada região de Israel”. E todos disseram: “Nunca aconteceu algo assim desde quando os israelitas saíram da terra do Egito” (Jz 19.29-30).

Para surpresa do povo e também nossa, quando, pouco depois, a monarquia foi estabelecida, Saul, o primeiro rei de Israel, escolhido pelo próprio Deus, era um benjamita exatamente de Gibeá. O pai dele (Quis) ou o avô (Abiel) seriam um dos quatrocentos rapazes sobreviventes da matança de Gibeá e a mãe deveria ser uma das quatrocentas virgens sobreviventes da matança de Jabes-Gileade. É por isso que Saul explicou a Samuel: “Eu sou a tribo de Benjamim, a menor de Israel” (1Sm 9.21). Esse fato inesperado e até mesmo fora de qualquer lógica é uma manifestação inequívoca da capacidade perdoadora de Deus, como está escrito em Romanos 5.20: “Onde o aumentou o pecado, a graça de Deus aumentou muito mais ainda” (NTLH), ou, “Onde proliferou o delito, a graça transbordou”(BP).

Há mais um detalhe de grande encorajamento: o maior de todos os teólogos cristãos e o mais notável missionário da igreja era benjamita. Duas vezes Paulo faz questão de se identificar: “Eu mesmo sou israelita, descendente de Abraão e membro da tribo de Benjamim” (Rm 11.1; Fp 3.5). Mais ainda: só a maravilhosa graça poderia colocar Tamar, Raabe e Bate-Seba (mulheres de comportamento sexual duvidoso) na genealogia de Jesus (Mt 1.3-6). Quantos de nós somos um milagre da maravilhosa graça? Ou quantos de nós ainda poderemos ser?

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