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Educação Cristã - parte 2

03/10/2013 07:40

Lutero, a Reforma e a educação

A Reforma Luterana trouxe profundas implicações econômicas, políticas e sociais à Alemanha e região circunvizinha. Neste novo cenário, a educação desempenhou preponderante papel e foi alvo de grande empenho por parte de Martinho Lutero, que era professor e tinha uma visão da utilidade do ensino para todos, a partir de uma compreensão profunda da educação nos princípios bíblicos, nos quais a família era a base do processo educacional.

O sistema de ensino alemão acabou por ser totalmente reformulado a partir do pensamento de Lutero que, junto com seu colega Melanchthon, acabou por pontuar a inauguração da escola moderna. Um exemplo disso temos na estruturação do sistema de ensino global organizado em três ciclos: a) fundamental; b) médio; e, c) superior.

Lutero tinha uma concepção de educação cristã, e isso é perceptível em todos os seus escritos onde a temática da educação aparece. Alguns de seus textos mais conhecidos sobre o assunto são: “À Nobreza Cristã da Nação Alemã, acerca da melhoria do Estamento Cristão”, escrito no ano de 1520; “Ao Conselho de todas as cidades da Alemanha para que criem e mantenham escolas”, escrito em 1524; “Uma Prédica para que se mandem os filhos à escola”, de 1530.

Para Lutero, pais comprometidos com sua tarefa de educar os filhos também estariam colaborando na construção de cidadãos bem educados, a fim de assumirem sua responsabilidade junto à sociedade civil bem como no governo espiritual. Em outras palavras, a educação é necessária em todos os âmbitos.

Neste processo, a figura do professor é fundamental para que a educação, efetivamente, aconteça. Este deveria, na visão dos reformadores, dispor de tempo e espaço para seu preparo, o qual estava vinculado a uma compreensão profunda, por parte do professor, da Palavra de Deus.

Não há sentido numa educação se ela não estiver intimamente conectada à Palavra de Deus, ensinava Lutero, pois somente a partir dela o ser humano pode compreender sua situação no mundo e qual a sua vocação efetiva. Por isso, no seu texto de 1524, lemos que: “onde a Sagrada Escritura não é a diretriz, certamente oriento para que ninguém envie seu filho”.

Por isso, os parâmetros educacionais de Lutero podem ser sumarizados como segue:

a) os pais são os responsáveis primeiros pela educação de seus filhos;
b) a universalidade da educação é um direito e uma necessidade;
c) é obrigação do Estado suprir e estabelecer escolas;
d) o fundamento de todo processo educacional (todos os níveis) está na Sagrada Escritura, e partir da qual todas as ciências úteis para o conhecimento devem ser ensinadas;
e) os professores devem ter preparo específico e consistente;
f) pais e filhos devem respeitar os professores, os quais devem ser dignamente remunerados;
g) os professores devem ser, por sua vez, exemplos para seus alunos e a sociedade;
h) toda instituição de ensino deve dispor de biblioteca.

A partir do pensamento dos reformadores, é possível perceber a importância da educação na constituição da pessoa, do cidadão.

Dois séculos depois, o pensador francês Jean-Jacques Rousseau escreve no seu livro Emílio: “Tudo está bem saindo das mãos do autor das coisas, tudo degenera nas mãos dos seres humanos”. Com isso, se vislumbra um novo momento na educação e que vai desaguar no que conhecemos como a educação moderna. A educação e formação oferecida pelo estado são republicanas, em que igreja e estado caminham separados em suas funções. Diga-se de passagem que esta ideia não é original do século XVIII, já que a república e seus ideais são invenção dos romanos.

No entanto, se no início salientamos o tempo e espaço da educação, no mundo do consumo desenfreado em que a sociedade está mergulhada nos últimos decênios, esta noção vem influenciar profundamente a educação atual. Só para citar algumas alterações neste campo, vejamos duas, que são basilares para a compreensão da importância dos parâmetros cristãos para uma educação inserida em uma sociedade consumista:

a) os avanços da tecnologia digital, nos quais o “aqui e agora” não é mais, necessariamente, definido em termos físicos, mas sim virtuais. Isso significa que o “aqui” se transforma em “todo lugar”; e, o “agora” se torna o único tempo que tem valor. Ou seja: o processo ensino-aprendizado foi alterado e não há mais lugar específico para ensinar ou estudar. Com isso, no ensino à distância, se torna normal uma pessoa estar “em sala de aula” enquanto está sentado confortavelmente à beira mar sob um guarda-sol. Mas, igualmente, pode “não estar presente” enquanto está sentado em uma sala de aula e um professor presencial. Assim, a tecnologia pode facilitar por um lado, mas por outro precisa de “educação” para não ser objeto de alienação, em que a tecnologia acaba por ser um fim em si e não um meio ou ferramenta para a formação integral e digna do ser humano.

b) as mudanças comportamentais e estruturais das famílias. Esta, talvez seja uma das grandes mudanças do mundo contemporâneo, pois as relações profissionais alteraram drasticamente os momentos de convívio familiar. E… a educação de filhos! Com isso, em muitos casos, a educação passou a ser vista como “uma coisa que acontece na escola”. Para compensar o “não tempo” passado com os filhos, a compensação acaba sendo monetária e não “o presente da presença”. Isso, na maioria das vezes, não é consciente, por isso a solução dos problemas decorrentes nem sempre é a melhor. Exemplo disso é perceptível no aumento de problemas de disciplina e de desvirtuamento dos padrões de convivência social, tanto em colégios como em universidades.

A violência e os conflitos de gerações que ocorriam no final da década de 1950, além de toda discriminação racial, levou a pensadora Hannah Arendt a se ocupar profundamente com a questão da educação. Para ela, uma das principais responsabilidades dos adultos para com as crianças é a da educação. Esta, no pensamento de Arendt, significa guiar as crianças por veredas que elas desconhecem.

Com isso, Arendt enfatizava o papel e a importância da autoridade na sala de aula. Contrária ao autoritarismo, defendia que o papel dos professores é o de estimular o aluno a conhecer o mundo e, com conhecimento, procurar mudar a situação socioeconômica vigente.

A educação, assim, é um acompanhamento na caminhada do desenvolvimento do ser humano, iniciando com sua infância, depois juventude e, por fim, a fase adulta. Não pode ser pensada diferentemente de um processo.